terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Fernando Pessoa ortónimo

Consulte a página, abaixo indicada, e ouça a declamação de "Ó sino da minha aldeia" e "Autopsicografia", de Fernando Pessoa Ortónimo, na voz de João Villaret:
http://letrasnatela.bloguepessoal.com/r1098/Letras-escritas-em-outras-telas/
Para ouvir o poema "Ó sino da minha aldeia", musicado e interpretado por Maria Bethânia, clique em: Descarregar (download) a faixa musical.

Leia a análise de texto, abaixo transcrita.

Análise do poema "Ó Sino da Minha Aldeia"

“O poema Sino da minha aldeia, publicado na revista Renascença, no ano de 1914, diz muito dos sentimentos do poeta, relativamente à sua infância. Em 1913 (data em que o poema é escrito), Fernando tem 25 anos, uma idade em que é “normal” o surgimento de uma maturidade intelectual, que leva da adolescência à idade adulta. Mas o que o perturba são ainda as memórias de uma infância feliz, se bem que muito breve, face aos problemas que o assolavam na sua adulta juventude: a instabilidade das emoções, a investigação de temas “maiores do que ele próprio”, a sua “obra” e principalmente a sua “missão”.

João Gaspar Simões, primeiro biógrafo de Pessoa, aborda na sua Vida e Obra de Fernando Pessoa o tema da juventude, sob o título sui generis de “Paraíso Perdido” (págs. 17-28 do Volume I). Compreende-se este título, se compreendermos as circunstâncias da vinda a este mundo do poeta. Ele nasce no n.º 4 do Largo de São Carlos, 4.º andar esquerdo, em Lisboa. Nasceu portanto entre um teatro – o Teatro de São Carlos – e uma igreja – a Igreja dos Mártires. Entre uma igreja popular, tipicamente lisboeta e um teatro das elites, o primeiro teatro lírico português, onde se encenavam as grandes óperas, a que muitas vezes o seu pai assistira na condição de crítico para o Diário de Notícias. Para o rapaz, ficarão para sempre marcadas na memória as badaladas do sino daquela igreja do Chiado, num timbre que se misturaria progressivamente com aquele timbre indistinto, apenas reconhecido pela sensação de vaga felicidade e despreocupação. A sua vida de aldeia, que ele refere no poema, é uma vida de idílio despreocupado, em marcado contraste com a vida citadina que o esmaga e preocupa, quando já não mais uma criança, luta contra se tornar um adulto.

São esses primeiros cinco anos de vida idílica que para sempre ficam na sua memória, como um conforto falso a que recorre quando o desespero o invade e o domina. A memória do apartamento espaçoso, que respirava um ambiente vagamente aristocrático, escadarias abertas e iluminadas, para um largo aberto e limpo, servia para serenar e pacificar. Isso e as “poeiras musicais” trazidas pela figura do seu pai – cujas feições ele mal recorda, e que morre quando ele tem cinco anos – com o qual ainda festejava os seus anos, enquanto era amado, filho único, “menino de sua mãe”. São os anos em que sobretudo a vida é apenas para ser vivida e não pensada. Uma vida que nunca mais retornaria igual senão como “um sonho”, a “soar-lhe na alma distante”.

Análise mais pormenorizada do poema:
Questionário

1. Um sino toca: o sino da aldeia do poeta. Mas cada badalada do sino "Soa dentro da minha alma". Que diferença pode existir entre um sino que toca fora da minha alma e um sino que toca dentro da minha alma?

2. O verso "Tão como triste da vida" tem uma construção pouco habitual. Explique o que se passa.

3. Na segunda quadra, o poeta diz uma coisa muito estranha: este sino toca a primeira pancada, porque a primeira parece sempre a repetição de outra. Pode dizer-se que isso tem que ver com o fato de o sino soar dentro da alma do poeta? Justifique a resposta.

4. Poeta que passa "sempre errante"; que significa esse adjectivo? Que motivos levarão o poeta a considerar-se errante?

5. Na terceira quadra há dois me muito curiosos: "por mais que me tanjas" e "soas-me na alma". Que efeito produzem eles no texto?

6. Comente os dois últimos versos do poema.

7. Haverá diferença entre ouvir um sino na aldeia e ouvir um sino na cidade? Quais as palavras que dão esse ambiente tranquilo da aldeia?
Respostas

1. Sino que toca dentro da alma, é um toque que lembra a Pessoa memórias de infância, portanto um toque que não o deixa indiferente, como qualquer outro toque de outra igreja.

2. "Tão como triste da vida": o poeta quer dizer "Tão lento como triste da vida", no entanto retira essa palavra. Parece-me o uso de uma figura de estilo chamada "elipse". Tira-se uma palavra, que no entanto se subentende.

3. Sim. Porque é um sino metafórico: representa outra coisa, as suas memórias de infância.

4. Errante é aqui "sem destino", sem futuro, sem esperança. Isto porque ele apenas na sua infância encontra conforto e sentido para a vida.

5. "Tanjas perto" e "tocas-me na alma distante" é uma contraposição, quase ironia, pois que "tanjas" é um tocar de instrumento e "tocas-me" é um tocar quase fisico, de influência.

7. "aldeia" é no poema um eufemismo para o espaço onde Pessoa nasceu e cresceu, entre uma igreja e um teatro lírico. Pequena aldeia é no sentido de ter sido a sua aldeia dentro da grande cidade, o seu espaço dentro do espaço indefinido que era de todos.

Fonte: O Major Reformado

1 comentário:

Soldado Estudante disse...

gostei!!
Muito bem organizado, mas poderia ter muito mais informações

Mensagem

http://www.paulacruz.com/bin/documentos/A___mensagem.doc
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