terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

"O Infante", de Fernando Pessoa, numa grande interpretação de Dulce Pontes


Poema "O Infante"


“O poema “Infante” enquadra-se na segunda parte de A Mensagem, consagrada ao tema Possessio Maris, ou seja, a posse do mar.

No seguinte link pode-se consultar o significado desta parte seguindo este link: http://omj.no.sapo.pt/forum.htm#Mensagem%20de:%20Leo.


O título do poema, “Infante”, poderia estar a referir-se ao Infante D. Henrique, mas parece-nos que a referência, puramente simbólica, é ao nascimento, ou pelo menos ao começo de algo, à juventude.

Além do mais, Pessoa já se referia ao “outro infante”, na primeira parte da Mensagem.

É o “Infante”, por isso mesmo, o relato de como tudo começa, do início da obra.

Note-se que aqui “obra”, deve ser entendida no sentido estrito da palavra, como acção, bem como no sentido lato e ocultista, como processo alquímico, que compreende diversos passos até ao seu final.

Se, por um lado, Pessoa se refere ao inicio da aventura marítima, ele não se refere apenas a isso, pois esse mesmo início, se bem que é apenas um episódio, é, pelo menos para ele, simbólico de um processo muito maior, de um Destino feito história de Portugal.


Talvez Pessoa se refira mesmo ao nascimento do Império, pois ele diz, no fim da primeira quadra: “Sagrou-te e foste desvendando a espuma”

Mas é certo que o princípio do poema nos diz que Portugal, ao construir o Império, é movido como instrumento de uma vontade maior.

É “Deus que quer”, não o homem.

É a vontade de Deus, ou se quisermos o Destino, que guia as acções dos marinheiros e dos estrategas.

Foi Deus também que quis que a Terra finalmente fosse uma, tanto porque foi um Português que primeiro a navegou por inteiro – Fernão de Magalhães, bem como portugueses a uniram descobrindo novos continentes.

De facto, o descobrimento do Brasil (descobrimento e não descoberta, como hoje se entende, ou talvez mesmo achamento, como dizem os brasileiros, pois a terra já lá estava e era habitada), une pelo mar a velha Europa à novíssima América de Colombo.

Sagrado Infante, o Império podia crescer, ser Rei.


De facto, na quadra seguinte, observa-se a descrição do crescimento do Império.

A “orla branca” da espuma é revolta de “ilha em continente”, pelas naus nacionais.

Até que, finalmente, viagem cumprida, a Terra fosse “de repente redonda”, porque finalmente totalmente percorrida pelos olhos humanos.


A última quadra, mais soturna, adianta a morte ao próprio Infante.

Note-se a ironia subjacente, que na história ainda curta que era do Império já Pessoa lhe desenhe a morte, fale no seu final.

Porque, em verdade, o Império morreu mesmo antes de se cumprir, morreu Infante, porque nunca se poderia cumprir como coisa material.

Pessoa defende um Império Maior, um Império Espiritual, verdadeiro Império, se quisermos.

Por isso, este Império ficou Infante, por se cumprir, à espera que se cumpra o Império Espiritual que será, esse sim, eterno. “Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez”, diz Pessoa.

Era esta a primeira missão cometida por Deus a Portugal, desvendar o mundo, e ela chegou ao seu termo. Mas falta ainda tudo. Falta “cumprir-se Portugal”.

Sabemos que Portugal era para Pessoa mais do que apenas a terra que se define dentro dos limites da fronteira, que Portugal para ele era língua, cultura, espírito e alma.

Se ele diz que falta cumprir-se Portugal, quer dizer que falta cumprir-se o destino glorioso (e imaterial) da alma, já que se desfez o destino material do corpo.


De facto, é só na terceira parte d'A Mensagem que esse destino maior se desenha em mais fino pormenor.

Encimado pela elocução latina Valete Frates, esta terceira parte anuncia-nos um projecto de paz universal, fraternal, para a humanidade.

Mas não um plano filosófico ou político, antes um plano espiritual e simbólico, que se vai revelar lentamente dentro de cada homem, de cada alma.

Fraternidade achada na semelhança com Deus, é certo, mas também com a alma portuguesa, com a alma do verdadeiro povo escolhido, que, ao contrário dos Judeus, teve o seu mártir morto em guerra por Deus e Nação”.

Fonte: O Major Reformado

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http://www.paulacruz.com/bin/documentos/A___mensagem.doc
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Só há ventos favoráveis para quem sabe para onde vai