terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

"O Mostrengo", de Fernando Pessoa

Assista a esta excelente animação baseada no poema "O Mostrengo", de Fernando Pessoa.


O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Proposta de trabalho

Elabore um comentário de texto, com base nos tópicos que lhe são fornecidos no texto abaixo.

“Mostrengo” Tema: Alegoria aos medos e obstáculos impostos aos portugueses.


Ideias principais: Inicialmente há uma tentativa por parte do povo português, representado pelo homem do leme de dobrar o Cabo das Tormentas.

No entanto, este é impedido pelo “Mostrengo”, com quem estabelece um dialogo (o Mostrengo apresenta-se superior e capaz de atemorizar toda a tripulação).

Após uma série de questões feitas pelo “guardador de cavernas” com o objectivo de demover os portugueses do seu principal objectivo, o Homem do Leme, embora assustado, ganha coragem e força para enfrenta-lo, possibilitando assim a continuação da viagem.


Inserção do poema na estrutura de “Mensagem”: Segunda parte – “O Mar Português” – poemas inspirados na ânsia do desconhecido e no espaço heróico na luta com o mal.

Em o “Mostrengo” encontra-se representada a passagem do Cabo das Tormentas, ou seja, a passagem do Oceano Atlântico para o Oceano Índico, e o ultrapassar dos medos, o que confere uma aproximação aos objectivos e à sua realização.

Estes objectivos, que assumem um carácter materialista, são reflectidos no titulo da obra – “Mensagem” onde Pessoa refere também o objectivo profundo para o qual Portugal estaria determinado.


Intertextualidade:

• Apresenta profunda semelhança com o episódio “Adamastor” de “Os Lusíadas”;

• O “Mostrengo” é o retomar da alegoria presente no “Adamastor” que assusta e ameaça os navegadores (neste poema o Homem do Leme ao serviço de D. João II) e que é vencido pelo frágil “bicho da terra tão pequeno” (Camões) que se diz “vontade” de um povo que quer o Mar que o Monstro afirma ser seu;

• Apresenta uma narração e um dialogo repetido entre Golias/Mostrengo e David/Homem do Leme.
Aspectos Simbólicos:

• Numero Três: Numero fundamental, cabalístico por excelência; exprime uma ordem intelectual em espiritual em Deus, no cosmos ou no homem; sintetiza a tri-unidade do ser vivo e a união entre o Céu e a Terra;

• O Mostrengo: Simboliza o desconhecido, as lendas do Mar, os obstáculos e os medos dos navegadores portugueses;

• O homem do leme: Alegoria do povo português; representa o patriotismo e a vontade de Portugal em evoluir e alcançar um objectivo;

• O leme: Símbolo de responsabilidade; significa autoridade suprema e a prudência.
Estrutura Formal:

• Três estrofes de noves versos cada (nonas);

• Alternância rimas ricas e rimas pobres;

• Esquema rimático: AABAACDCD com rimas emparelhadas em “A”, cruzadas em “C” e “D” e em verso solto em “B”.

• Irregularidade métrica;

• Refrão Hexassilábico: “El-Rei D. João Segundo!”; • Ritmo crescente (cresce à medida que o homem do Leme “cresce” em coragem).


Figuras de estilo:

• Metáfora: “Meus tectos negros do fim do mundo?”;

• Anástrofe: “Três vezes do leme as mãos ergueu,”;

• Quiasmo: “Disse o mostrengo, e rodou três vezes / Três vezes rodou imundo e grosso”;

• Anáfora: “De quem são as velas onde me roço? / De quem as quilhas que vejo e ouço?”;

• Interrogações retóricas: “E escorro os meus medos do mar sem fundo?”;

• Sinédoque: “E o homem do leme tremeu, e disse:”


Linguagem:

• Rico em sonoridade: Sons graves, fechados de natureza quase onomatopaica;

• Tempos verbais: Verbos “dinâmicos”, de movimento o Infinitivo: “Voou três vezes a chiar”; o Presente do indicativo: “O mostrengo que está no fim do mar”; o Pretérito perfeito: “E disse: Quem é que ousou entrar”; o Gerúndio: “E o homem do leme disse, tremendo:”; o Conjuntivo: “Que moro onde nunca ninguém me visse”;

• Predomínio de substantivos sobre adjectivos (adjectivação conseguida pelo vocabulário disfórico – Substantivos e verbos).

Sem comentários:

Mensagem

http://www.paulacruz.com/bin/documentos/A___mensagem.doc
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